Brothers
Para a Beatriz.
És a minha musa e inspiração mesmo quando vês que nada é fácil o teu sorriso torna o mundo melhor, a tua generosidade não tem limites.
Sem ti nada era possível. Contigo o mundo não tem limites.
António Pedro de Sá Leal
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Prólogo
Lisboa, outubro de 1995
A Escola Secundária tinha sido construída em meados dos anos 80, tinham demorado quase dez anos a finalizá-la. Apesar disso em 1995 era uma escola datada com uma série de espaços desadequados. Era fria no inverno e quente no verão. Tinham poupado muito na sua construção, apesar de na altura o valor que custou ter superado largamente o valor orçamentado inicialmente.
Numa das salas no primeiro piso do bloco D, o que ficava na ponta da escola e onde os miúdos iam fumar os seus charros nos intervalos, o professor falava do processo de comunicação, emissor, recetor, canal, essas coisas que deixavam os alunos da turma do 10º B da área de Humanidades enfadados, apesar de ser o início do ano letivo e o professor ser jovem e entusiasmado. Sabiam do assunto e estavam a olhar para fora ou a passar papeis entre si para combinar o que iam fazer no intervalo. Desde o 8º ano que ouviam falar do emissor e do recetor. Ignoravam ostensivamente a aula do jovem professor Luis Marreiros, aspirante a jornalista naquele tempo e um dos mais proeminentes jornalistas dez anos depois em Portugal. O entusiasmo do professor era apenas absorvido por um aluno, que cedo percebera que havia mais na comunicação do que parecia à primeira vista. João era o melhor aluno da turma. Mas nem por isso o mais popular, pelo contrário. João da Silva Mendes também conhecido como o Porteiro ou GNR, porque a sua mãe era porteira e o seu pai GNR, era um adolescente cheio de borbulhas, gorducho e com poucas aptidões físicas, mas era pelo contrário extremamente inteligente e dotado de uma curiosidade fora do vulgar. A decisão de ir para humanidades tinha vindo do ódio visceral que tinha à matemática e o gosto que tinha pela leitura. Cedo tinha também desenvolvido o gosto pela comunicação e pelo seu poder. Testava muitas vezes com os seus colegas lançar um boato sobre determinado assunto e ver o seu poder crescer ao ponto de estragar namoros, amizades e em casos mais extremos acabar numa cena de pancadaria. Ainda com uma ética pequeno-burguesa natural da época não se aventurava em nada que o pudesse beneficiar. No 10º ano vivia de pequenas experiências. O seu interesse e perguntas na aula do professor Luis Marreiros eram interessadas, inteligentes e interesseiras. Queria saber mais sobre como se podia controlar a informação. O professor farto de dar aulas a alunos que não mostravam qualquer interesse sobre nada, encontrava em João um estímulo para dar aulas e por isso respondia-lhe com entusiasmo e com toda a informação que considerava fundamental. Mais tarde estabeleceram um relacionamento forte que os ajudou ambos a progredir na sua carreira.
A uns quilómetros de distância estava numa aula de filosofia um outro rapaz, louro de olhos azuis era o menino bonito do colégio. As miúdas suspiravam à sua passagem e os rapazes queriam ser seus amigos. Manuel não era o melhor aluno da turma, mas era dos melhores, nele convivia a beleza física e a inteligência. Gostava de ser o miúdo mais popular do colégio e percebia como podia utilizar isso em seu proveito fosse para “sacar” uma miúda ou para ter uma nota melhor num teste. Mas percebia também que o mundo era maior do que o seu colégio e a sua zona. Os pais, ambos advogados de sucesso investiam tudo no seu filho único. Viajavam amiúde com ele pela Europa, compravam-lhe as melhores roupas, deram-lhe uma mota para poder deslocar-se onde queria, deixavam-no sair à noite e toleravam mesmo alguns abusos de confiança. Viam no filho o potencial de chegar onde eles nunca tinham chegado. Maria e Francisco eram os primeiros filhos das respetivas famílias a obterem uma licenciatura. Os pais de Francisco eram da Covilhã e pequenos comerciantes, tinham investido tudo no filho para ele poder tirar o curso universitário e ser “doutor”, ele, Francisco, pai de Manuel fez tudo para não os desiludir, tirou direito, casou-se também como uma advogada. Maria era de Torres Vedras, filha mais nova de seis irmãos. O pai tinha abandonado a família ainda antes de nascer. A mãe era uma mulher a dias, que trabalhava na casa de uma das famílias mais proeminentes do burgo e isso permitiu que a sua filha mais nova fosse estudar para Lisboa. Maria era uma miúda bonita e inteligente, soube fugir às tentações na devida altura, mas não conseguiu escapar ao patrão da sua mãe que a seduziu ainda adolescente e só conseguiu libertar-se dele quando depois de terminar o estágio da ordem de advogados no escritório dele, encontrou um emprego numa pequena sociedade de advogados em Cascais onde conheceu Francisco, seu futuro marido e pai de Manuel. Ambos estavam desejosos de apagar os maus momentos e assim que o negócio começou a vingar procuraram libertar-se do passado. Reinventaram-se junto dos novos amigos contaram uma história verosímil e consistente e passaram a vir de boas famílias da província. A mãe de Maria tinha emigrado para a Suíça quando ela ainda estava na faculdade de direito de Lisboa e por isso o neto só a conhecia quando ela vinha visitar a família a cascais. Já os pais de Francisco haviam morrido uns anos antes do nascimento de Manuel num acidente de carro, tendo Francisco aproveitado para vender tudo o que tinham na Covilhã e empenhar-se em ser um cascalense. Quando falava dos seus pais, referia-se a uma quinta na Covilhã, ao pai empresário e a mãe uma senhora de boas famílias. Manuel, em boa verdade não tinha muito interesse pelo passado. Interessava-lhe sim o presente e tirar proveito de tudo a que tinha direito.
Nessa sexta-feira a ideia era ir com os amigos para Lisboa, algo que não faziam com muita frequência, e quem sabe sacar uma miúda que conseguisse levar para a cama.
Depois do jantar, João disse aos seus pais que iria chegar mais tarde, uma conquista que tinha conseguido à custa de ser bom aluno e genericamente responsável. Explicou que ia com os amigos ao Bairro Alto e depois para o Kremlin. Estimava chegar por volta das 04:30/05:00, dependendo da hora a que todos dessem por terminada a noitada. Era o início do ano letivo e por isso o pai GNR, deixou-o ir.
A noite começou no café da zona, onde a maior parte dos miúdos se reuniam até às 22:30/23:00 antes de apanharem o autocarro para o Bairro Alto. Ao contrário do que dizia aos pais, João não ia com os “amigos”. Ia com o Duarte, outro excluído da dura realidade dos adolescentes. Duarte era o melhor amigo do João e era um miúdo doce de boas famílias, estudava artes e tinha uma confusão grande no que dizia respeito á sua orientação sexual. João sabia de alguma forma isso, mas do lado dele não havia dúvidas e por isso não o atrapalhava esse amigo diferente. Saíam como os outros miúdos, mais para observarem do que para “viverem”. Aprendiam sempre que saiam um pouco mais sobre o mundo que os rodeava e dessa forma preparavam-se melhor para o dia-a-dia. João utilizava as suas saídas com Duarte para preparar histórias que depois espalhava habilmente na escola para testar as teorias que ia aprendendo nas aulas de comunicação. O autocarro para o Bairro Alto ia cheio de jovens, rapazes e raparigas que iam prontos para se divertir, beber e namorar. João e Duarte iam divertidos a olhar para um casalinho da escola que se beijava como se não houvesse amanhã. Quando chegaram ao Bairro Alto seguiram a rota habitual, primeiro “As Primas” uma tasca gerida por duas primas que servia a imperial barata e onde os jovens se encontravam antes de irem tentar a sua sorte noutros locais onde o acesso era mais reservado, como os três pastorinhos ou o frágil. Não sem antes passarem por outros bares onde o valor da imperial ia subindo e o publico envelhecendo. Algures nessa noite Duarte encontrou um amigo que o levou a um bar no bairro alto onde a comunidade homossexual se reunia. João já não tinha especial interesse e por isso acabou sozinho pelas duas e meia da manhã. Decidiu seguir mesmo assim para o Kremlin. Foi descendo do Bairro Alto até à 24 de julho juntamente com os outros jovens da sua idade, foi-se misturando nos grupos sempre com receio de ser assaltado. Quando chegou ao cais do Sodré seguiu a pé pela 24 de julho em direção ao kremlin. Quando passou o mercado das flores assistiu a um brutal acidente de automóvel. Um BMW derrapou na água deixada pelos homens da limpeza guinou para a esquerda e capotou várias vezes. Projetada pelo para-brisas da frente Joana morreu instantaneamente. No lugar do morto Tomás não teve melhor sorte pois foi esmagado contra um camião que travou o capotamento do carro. Apenas o condutor saiu ileso. Manuel, tinha trazido o carro do pai para sua noitada em Lisboa. Não era a primeira vez que o fazia. O pai, apesar de não autorizar, também não o impedia. O carro estacou na posição certa e João, que não tinha propriamente espírito aventureiro, ajudou o condutor a abrir a porta e sair do carro. Manuel tinha um pequeno corte no sobrolho, mas nada mais. João ajudou-o a sentar-se na berma da estrada uns metros longe do carro e dessa forma impediu que os restantes transeuntes se dessem conta que o miúdo louro sentado no chão com o ar meio perdido ao lado do miúdo gordo cheio de borbulhas era o condutor do BMW que tinha acabado de se despistar, matando dois dos seus ocupantes.
- O meu pai vai matar-me, foram as primeiras palavras do Manuel quando se deu conta do que tinha acabado de acontecer.
- Calma, disse João. O que interessa é que estás bem. Toma aqui o meu lenço e põe aí no sobrolho que tens um pequeno corte.
- Ok, ok.
Passados uns 15 minutos chegou o primeiro carro da polícia e uns momentos depois a primeira ambulância. Nessa altura João tinha ajudado Manuel a levantar-se e estava já com ele na estação do cais do Sodré. Eram 03:00 da manhã e o primeiro comboio era só às 06:00. Tinham de esperar. João foi à cabine mais próxima e ligou para casa. O pai estremunhado atendeu o telefone.
- Pai, sou eu. Está tudo bem. Posso ficar hoje em casa de um amigo? Tive aqui sorte com uma coisa…
- Sorte? Ok rapaz. Tens preservativos? Quero-te em casa até à hora de almoço.
- Sim pai. Obrigado. Estou aí mais cedo.
Voltou para junto do Manuel que estava apático.
- Como te chamas?
- Manel. E tu?
- João.
- O que vou dizer ao meu pai? Estou feito ao bife.
- Nada, não vais dizer nada. Ninguém te viu. Sabes com quem vinhas no carro?
- Sim, sei. Com o meu amigo Tomás e a namorada dele Joana. O que lhe aconteceu?
- Acho que morreram…
- Não pode ser…não pode ser…
- Pois…
- O que vou fazer?
- Sabes Manel, podes fazer duas coisas. Ou dizes a verdade e lixas a tua vida toda, ou contas uma história bem montada e safaste. E ninguém tem de saber para além de eu e tu.
- Como assim uma história?
- Podes dizer que tiraste as chaves do carro do teu pai e as deste ao Tomás para ele trazer a namorada a Lisboa. E tu ficaste algures no caminho. Quando chegares a casa contas essa história. A seguir deixas a história seguir o seu rumo. Do que percebi antes de sairmos do local as pessoas achavam que o rapaz vinha a conduzir e que a rapariga vinha no lugar do morto sem cinto. Aliás vinham os dois sem cinto. O momento em que saíste do carro foi tão rápido que mesmo que alguém tenha visto, não estiveste lá mais de uns segundos e por isso facilmente te confundem e podem sempre pensar que foste comigo ajudar.
À medida que falava João não acreditava que estava a dizer o que na realidade estava a dizer. Um assomo de sangue-frio que desconhecia em si, fê-lo ajudar um completo desconhecido. Desta vez não era uma brincadeira na escola. Era uma coisa séria com mortos. Pensou que se esta história pegasse era incrível. Acertou com Manuel mais uma série de pequenos detalhes, nomeadamente o corte no sobrolho. Mudaram um pormenor na história que se prendia com Manuel estar em Lisboa. Consideraram que era mais simples dizerem que Manuel tinha vindo de comboio e Tomás e Joana de carro. Quando viu que não chegavam Manuel foi de volta para Cascais. O que na realidade estava a acontecer. Por incrível que pareça a história pegou. Francisco e Maria queriam tanto acreditar na história do filho que ajudaram a que narrativa se tornasse sólida e consistente sendo inconscientemente cúmplices do duplo homicídio que o filho tinha cometido inadvertidamente e da história que o miúdo gordo e borbulhento tinha criado.
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Capítulo 1
1998/ 2002 – Universidade
Depois do acontecimento de outubro de 95, João e Manuel voltaram a encontrar-se mais umas vezes até que a história e a distância esmoreceram a amizade. Eram pessoas diferentes de realidades diferentes que se tinham encontrado em determinada circunstância.
Em 1998 ambos entraram na universidade. João na Universidade Nova de Lisboa no curso de comunicação social e Manuel na Universidade Católica no curso de direito. Era o ano da Exposição Mundial em Lisboa, era uma época de prosperidade.
João
João tinha deixado de ser o miúdo gorducho e borbulhento. O pai tinha-o obrigado a ir para o rugby e isso endureceu o jovem gorducho que tinha agora um metro e oitenta e cinco e uns ombros largos e uns abdominais definidos. Continuava com cara de bolacha, mas ninguém se metia com ele e havia mesmo muitas miúdas que faziam questão de ser suas amigas. A vida na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas era rica em noitadas, algum sexo e professores realmente geniais. Tendo ganho o hábito de estudar, sendo um miúdo inteligente e curioso João foi o melhor aluno do seu ano e um dos melhores de sempre, o que lhe valeu um convite de um dos seus professores para ir estagiar numa estação de televisão durante o verão de 1999. Algo que João aproveitou. Sentia que o mundo era seu e por isso estava entusiasmado. Os seus pais viviam do orgulho do filho universitário e agora até aparecia na televisão. Os seus amigos da rua invejavam o filho da porteira e do GNR, que estava numa realidade diferente das deles e que tinha dinheiro, miúdas e sucesso. Ao longo do curso foi assistindo em silêncio ao modo como o poder se desenrola, como os media são instrumento e ferramenta para criar, elevar e destruir ideias, pessoas, movimentos e negócios. Num mundo ainda não totalmente digital, mas cada vez mais pequeno, João viu como se manipulava em escala, como uma notícia dada de forma diferente mudava a perceção das pessoas e sobretudo mudava o rumo da história, foi dentro da sua escala de estagiário em vários meios, começou pela televisão, passou pela radio, pelos jornais e pelas revistas, fazendo exercicios de manipulação de informação, algumas vezes por indicação dos seus chefes e dos chefes deles, outras pequenas alterações de sua autoria. Não tendo acesso percebeu que havia um grupo pequeno que decidia em seu favor, não eram todos da mesma equipa, mas mantinham entre si a distância de adversários que se temem e respeitam. Estava maravilhado com o poder dos media. Podia com facilidade mudar o rumo de um acontecimento. Quando em 2002 saiu da universidade teve muitas propostas de trabalho. Aceitou aquela que lhe parecia na altura a mais evidente. Ia trabalhar num jornal semanal. Os acontecimentos do ano anterior tinham catapultado o mundo para um estado de vigilância e guerra permanente. O dia 11 de setembro de 2001 tinha sido um dia rico em notícias e dramas. Os EUA foram atacados no seu próprio pais. João teve a sorte de assistir na primeira linha segura tudo o que se foi passando e sobretudo perceber como se foi montando uma teia à volta desse acontecimento que determinou que um menos de dois anos depois os EUA invadiram pela segunda vez o Iraque para depor o Saddam Hussein, utilizando a opinião publica mundial a seu favor sob a afirmação que o Iraque estava a produzir armas de destruição maciça. Foi a primeira vez que João viu o poder da comunicação dar aso à invasão de um país. Ficou maravilhado.
Manuel
Manuel tinha entrado na Católica em Lisboa. Era o desejo dos seus pais. E ele cumpriu. A faculdade estava cheia de maus alunos com dinheiro e isso era um problema para Manuel que apesar de tudo era um bom aluno. Inteligente, rápido a raciocinar e frio a decidir. Fazia-lhe alguma confusão a maior parte dos seus colegas que tinham nomes sonantes vinham em carros bons, mas na realidade não eram lá muito inteligentes. Ao fim do primeiro ano convenceu os pais que a Faculdade de Direito de Lisboa era o sítio onde ele queria estar. Todos os grandes advogados e estadistas tinham passado por lá. Tinha tranquilamente média para pedir transferência e foi isso que fez. Deixou para trás um ano de farras, droga e muito sexo.
O segundo ano da faculdade foi trabalhoso. O nível de exigência era diferente e os professores não iam em conversas de meninos bonitos. Mas reconheciam a qualidade dos alunos e não sendo o melhor, Manuel andava lá perto. As festas mantinham-se e o sexo com as amigas também. Mas o seu enfoque era estudar e aprender. No fim do segundo ano foi para um escritório de advogados no Verão trabalhar. Os pais queriam-no com eles, mas Manuel queria mais. Um dos seus professores recomendou-o a um dos mais influentes advogados de Lisboa. Manuel passou o Verão a fazer trabalho de sapa, sem nenhum glamour, nem interesse. As idas à praia e ao surf eram reduzidas, só compensadas pela jovem rececionista com quem passava noites tórridas na pousada da juventude de Almada com vista sobre Lisboa. A Francisca era filha de um amigo do advogado e ainda não tinha terminado o 12º ano. Era uma daquelas miúdas louras, com olhos azuis, umas pernas bem torneadas e bronzeadas e uns seios fartos e firmes que deixava entrever atrás do balcão da recepção. Sabia isso e usava-o em proveito próprio, deixando os clientes do advogado loucos com a sua beleza. Manuel não lhe tinha ligado muito no princípio. Não lhe dizia nada. Sim era gira e boa, mas nada que ele não tivesse habituado em Cascais ou na Católica. Não tinha falta de sexo e não queria meter-se em sarilhos com o patrão e muito menos com o amigo do patrão que era um dos magnatas dos media em Portugal. A indiferença de Manuel deixava por seu lado Francisca maluca, como era possível aquele miúdo giro não lhe ligar nenhuma. Ia mandando-lhe algumas bocas, mas sempre sem reação. Um dia fez algo que nunca imaginou e convidou-o para almoçar. Havia no Adamastor um pequeno restaurante escondido, meio tasca, mas com uma vista fantástica. Era suficientemente perto para poderem ir lá à hora de almoço. Manuel sem nenhuma desculpa válida acabou por ir almoçar com ela. O almoço foi rápido, mas Manuel sentiu uma química no ar. O seu desinteresse pela bonita Francisca, fez com que ela estivesse mais consciente de si e sobretudo que nem todos os homens se derretiam por um decote generoso e um sorriso bonito. Isso fê-la descontrair. Sentiu-se mais segura e menos pressionada para ser a miúda gira. A sua conversa centrou-se mais no que a verdadeiramente a interessava, que era a política e menos no que ela poderia pensar que ele poderia querer ouvir. No fim do almoço seguiram a pé para o escritório. Manuel surpreso pela Francisca menos superficial olhou para ela de outra maneira. Uma semana passou e combinaram sair à noite. Ambos tinham grupos de amigos, absolutamente identificados, mas perceberam que o momento era de estarem sozinhos. Foram jantar à Trafaria num pequeno restaurante que servia um peixe fantástico e depois foram dar um passeio a pé pelas praias de São João. Estavam a meio do verão e o calor era intenso. Manuel desafiou-a a darem um mergulho à noite. Francisca surpreendida consigo mesma aceitou. Despiram-se entre o silêncio e os risinhos atrapalhados e foram nus para a água. O frio da água acordou-os e juntou-os. Beijaram-se levemente uma vez. Quando saíram da água, Francisca disse-lhe que queria estar com ele. Manuel levou-a de carro para a pousada da juventude de Almada que tinha uns quartos baratos, mas com uma vista incrível sobre Lisboa. Entraram de mãos dadas. Exploraram o quarto e foram para a varanda. As suas mãos tocaram-se e a seguir beijaram-se. O beijo foi intenso, próximo e apertado. As mãos dela percorreram a cabeça dele sentido os seus cabelos louros entre os seus dedos e aproximando-o de si. Ele deixou as suas mãos deslizarem pela anca bem torneada de Francisca, chegado lenta e timidamente ao seu rabo que foi massajando. Começou a despi-la primeiro a camisola, depois o soutien, de seguida as calças e as pequenas cuecas. Ela ficou nua. Era uma jovem mulher bonita, a sua barriga lisa terminava numa pequena penugem que deixava entrever o seu sexo. Os mamilos eram empinados e atrevidos. Deitou-a na cama e fizeram amor com paixão. Esse Verão foram muitas vezes até à pousada da juventude de Almada, mas mais do que isso forjaram uma amizade que iria perdurar por muitos anos.
Nos anos seguintes a faculdade foi tomando conta do Manuel e tornou-se um dos melhores alunos do seu ano. Isso valeu-lhe vários estágios de Verão remunerados o que foi moldando o seu carácter e sobretudo o seu conhecimento sobre o que não se via. Os seus patronos, eram advogados de primeira linha e os seus clientes muitas vezes figuras públicas, políticos ou empresários de renome. Em silêncio Manuel observou como se mexia o poder em Portugal. Uma reunião que assistiu para escrever a ata transformou-se numa notícia e na demissão de um ministro. Outra fez com que se mudasse uma lei que influenciava milhares de portugueses. Mas ninguém falava nas notícias dos seus advogados e muitas vezes do empresário ou político. Havia uma espécie de poder oculto que começou a fascinar Manuel.
Quando acabou a faculdade, depois do estágio e do exame da ordem decidiu que era o momento de afirmar-se na advocacia e seguir assim a pegada dos seus pais, que por esta altura tinham um escritório já com alguma dimensão em Lisboa. Mas Manuel queria distância. Queria provar aos seus progenitores que conseguia vingar entre os melhores. A sua ambição era grande, mas de resto a sua sageza e dedicação também. Conseguiu um lugar num dos maiores escritórios de advogados de Lisboa. O início da sua carreira coincidiu com um dos escândalos de maior dimensão num Portugal adormecido. Na Casa Pia de Lisboa veio a público um esquema de pedofilia que envolvia alguns nomes conhecidos da praça pública, incluindo um secretario de estado. Calhou ao escritório onde trabalhava a defesa de um dos arguidos no caso Casa Pia.
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BIO
António Pedro de Sá Leal nasceu em 1971 em Lisboa, licenciou-se em Filosofia na Universidade Nova de Lisboa - FCSH, tendo posteriormente tirado ainda duas pós-graduações em Estudos Europeus e Marketing Management no ISEG, em 2012 graduou-se em Gestão Avançada da Economia do Mar pela AESE Business School, recentemente concluiu o seu mestrado em Inovação e Empreendedorismo na Nova SBE.
A partir de 1996 decidiu dedicar a sua vida ao surf. Em 2001 fundou a empresa Alfarroba que contribuiu de uma forma decisiva para a afirmação do Surf em Portugal. Criou de raiz a Free Surf a primeira e única revista de surf gratuita em Portugal, é coautor do livro Portugal Surf Guide, o primeiro guia completo das ondas portuguesas (UZINA BOOKS -2012-2017). É autor do livro Surfing- The Next Step (LEYA- CASA DAS LETRAS – 2018), e em 2020 lançou o seu primeiro romance – SALVADORES (LEYA -CASA DAS LETRAS – 2020). Coautor do livro - Empreendedorismo e Inovação no Desporto (Quântica Editora – 2022).
ISBN 978-989-33-8987-4
© António Pedro de Sá Leal
Direitos Reservados
Capa: António Pedro de Sá Leal
1ª Edição: Dezembro 2025